Brigando com a arma

Acho impressionante o comodismo das autoridades brasileiras quando se deparam com alguma questão que expõe sua incompetência. Este é só mais um daqueles assuntos da sociedade que se estendem e vão parar para dentro das quatro linhas de cal do futebol.

No Brasil, se dez por cento da população consome bebidas alcoólicas, o governo retira o direito de outros noventa por cento de beber uma quantia razoável de álcool e ir para a casa na segurança e comodismo de seu automóvel. No fim das contas fodemos a maior parte da população apenas porque somos incapazes de punir com rigor e controlar a minoria foco do problema. O que me deixa mais intrigado é que pessoas que fazem parte dos noventa batem palmas para esta atitude ditatorialista afirmando ser a melhor e única solução. E de tão hipócritas que são conseguem discutir e sustentar esta opinião em uma mesa de bar prestar a voltar para casa dirigindo seu carrinho.

Lindo!

O brasileiro tem uma tendência natural tão grande a hipocrisia que deveria até ser motivo de estudo.

Se a violência cresce retiramos o direito do cidadão de portar uma arma.

Para cuidar da saúde da população proibimos todos de fumarem onde bem entenderem.

Antes de qualquer coisa, não sou fumante, alcoólatra e nem colecionador de armas, só sou consciente o suficiente a ponto de reivindicar meus direitos e saber que se eu quiser começar a fumar daqui a cinco minutos no Buteco do Zóio (bar de um grande amigo meu aqui do lado de casa), não farei o meu parceiro ser multado, mesmo estando em um estabelecimento privado com a condescendência do dono.

Mais uma vez os brasileirinhos classe média padrão adoraram a medida ditatorialista, afinal, diferente de mim são todos conscientes demais para fumar, e óbviamente acham um hábito nojento. E claro, como bons classe média padrão só conseguem olhar para o próprio umbigo.

Enfim, eu poderia lhes citar milhares de tópicos como estes que fogem do senso comum e acabam se perdendo no limbo da hipocrisia brasileira. Repudiamos o aborto, as drogas, mas todos já conhecemos histórias de mulheres que se feriram ou morreram em abortos clandestinos, todos temos aquele amiguinho que sempre tem aquela “bucha” ou “pino” quando requisitado. De exemplos este assunto está cheio, mas como é de costume neste blog vou me ater ao futebol.

Recentemente a Macha Alviverde foi proibida de ir aos estádios. Mais uma vez na incapacidade de controlar dez por cento fodemos noventa.

Gostariam de saber minha opinião sobre as torcidas organizadas de um modo geral? Adoro, todas!

Acho as torcidas organizadas a essência do futebol, elas são no mínimo uns sessenta por cento do espetáculo. Vocês já viram torcedor comum abrir mosaico, bandeira, cantar em coro para o time? Resumindo, vocês já viram o torcedor comum ser o décimo segundo jogador do time em campo?

Eu lhes respondo, nunca!

Torcedor comum torce, faz sua festinha e tudo mais, mas o que dá a beleza ao espetáculo é a organização (não me diga). A ralação da galera que ensaia até de madrugada antes de jogo e viaja metade do Brasil atrás do time.

O mesmo torcedor comum que quer o fim das organizadas é aquele que fica encantado com o bandeirão, se empolga no coro, e adora ver o efeito das bexigas.

Imagino que o tocedor que quer o fim  das organizadas tenha a consciência que o Palmeiras jogará as moscas metade dos seus jogos a partir de agora. Não é só o Palmeiras não, por mais que eu não goste da Independente eu reconheço que se não fosse ela o São Paulo jogaria para duzentas pessoas metade dos seus jogos. Achar que é o torcedor comum que lota estádio e dá show é lindo, mas não é a realidade, torcedor comum só vai na boa. A própria torcida corintiana, tão fiel que é, se você tirar as organizadas você tira uns setenta por cento do publico alvinegro.

A FPF baniu a organizada palmeirense dos estádios? A população está satisfeita com isto? Perfeito. Então que TODAS as organizadas do Brasil sofram as conseqüências. A final, são todas organizadas, não são? O problema não é este?

Mais uma vez o Estado passa um recibo de incompetência, e em função de dez por cento de pessoas ruins dentro de uma organizada destroem o direito de noventa por cento de palmeirenses de ir ao estádio abrir o bandeirão do seu time. E mais uma vez a população adora e se dá por satisfeita sem notar que mais dia ou menos dia serão os próximos a perderem seus direitos!

Tão hipócrita, interessante e acima de tudo tão brasileiro!

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