Ao maior de todos

Nunca fui um cara de acompanhar muito outros esportes além do futebol, entendo alguns, acho até legal, mas não me identifico. E é nessa hora que eu noto o quão gigante é o papel que um ídolo possui sobre uma criança que não entende nada da vida.

Quando criança me encantei demais pelo São Paulo de Telê Santana e principalmente de Raí.

O que era aquele time?

Eles não jogavam bola como os outros, ele se divertiam em campo. Faziam da obrigação o seu maior passatempo e o resultado era só uma consequência do show que eles proporcionavam. Na verdade quem assistia à partida meio que nem lembrava tanto do resultado, lembrava mais do baile que eles davam. Pelo menos é assim que eu me recordo quando puxo um pouco da memória.

Acho que é por isto que hoje em dia eu não ligo tanto para o resultado final de uma partida.

Lembro como se fosse hoje o meu maior ídolo descendo do avião sem nem conhecer seus companheiros, ir para o jogo final, fazer um gol, dar passe para outros dois e despachar o rival sozinho.

Acho que é por isto que quando um jogador volta da Europa e fica um ano enganando por aqui em “adaptação” me soa tão falso quanto uma nota de três reais.

Outra coisa que nunca vou esquecer é do cara que fez um moleque que odiava acordar cedo madrugar todo o domingo só para acompanhar uma coisa que ele mal entendia.

Eu não conhecia nada de automobilismo. Não sabia que tinha política por trás, não sabia que tinha jogo de equipe e nem diferença de carros. A única coisa que eu sabia era que quem fosse mais rápido ganhava, e o mais doido é que parecia que da mesma forma que eu, quando garotinho, o Senna também não tomava conhecimento das coisas que eu citei. Ele passava por cima de todas, parecia que nem se importava com a situação na verdade, e como o garotinho que o assistia, ele só tinha certeza de uma coisa, tinha que ser o mais rápido que já existiu para ganhar, sem desculpas e sem chororô. O objetivo era tão simples quanto difícil. Era só ser o mais rápido.

O melhor é que ele conseguiu.

Foi o mais rápido da história, levantou o Brasil sempre que teve a oportunidade, nunca se envergonhou de seu país, e por pior que fosse a situação deste a bandeirinha verde e amarela sempre estava lá.

Como a vida de todo brasileiro na época, a nossa não era fácil, mas me lembro que nos domingos era eu lá junto com ele no lugar mais alto do podium. Por alguns segundos não era o Senna o maior brasileiro de todos era eu. Engana-se quem pensa que este era o sentimento de um moleque que não sabia o quão dura a vida poderia ser, tenho certeza que este era o sentimento de todos nós. Quando eu olhava para o meu velho, fã de Formula 1 que sempre passava a imagem de durão, e o via chorando feito uma criança eu tinha certeza disso.

Recomendo a todos que assistam ao filme/documentário do Ayrton. Nele, quem não conseguia dimensionar o que é a Formula 1 nota que é um esporte tão sujo quanto o futebol, com uma única diferença, tinha um cara lá que não ficava quieto, não aceitava as coisas erradas.

Quando ví Rubens depois Massa abrirem mão de suas posições só para garantir o salário do fim do mês senti vergonha de ser brasileiro, senti vergonha de ter tido Senna me representando lá, senti vergonha por eles.

Por um momento pensei o que o Senna faria na mesma situação, e tive certeza. Ele faria qualquer coisa, menos entregar uma corrida de propósito.

Foda-se o salário, tem certas coisas que valem muito mais que dinheiro. Orgulho e dignidade são duas delas.

Foda-se política, é só ser o mais rápido de todos.

Senna me ensinou isto.

Foda-se adaptação e entrosameno, é só jogar futebol e fazer mais gols que o adversário.

Raí me ensinou isto.

Sou feliz por ter tido professores tão bons, sinto-me triste toda a vez que o primeiro de maio chega ou aquela maldita corrida da Itália se aproxima.

Parafraseando o maior ídolo brasileiro:

“Sinto falta da época que corrida de carros era apenas uma corrida. Sem política, sem dinheiro, sem nada. Corrida era apenas dois carros um mais rápido que o outro”.

Depois de Ayrton nunca mais assisti uma corrida por inteiro, o futebol eu ainda não consegui largar.

Meu velho, este chorou por uma semana no sofá de casa, e quando o primeiro de maio chega ele não assiste qualquer corrida de automóveis.

As vezes eu acho que é por respeito, mas nós dois sabemos a verdade é que juntos iriamos chorar feito crianças ao ouvir o ronco de qualquer motor nesta data. A ferida está aberta e eu gosto que fique assim, tem dor que serve só pra gente lembrar e respeitar. Esta é para que jamais alguém se esqueça do maior brasileiro que já existiu.

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